Potenciar a Razão

FERNANDO SAVATER

 

I

Vou tentar fazer uma reflexão que no final desembocará em falar de filosofia, mas não queria começar a falar de filosofia desde o início. Isto é, eu creio que a educação é, entre outras coisas, mas muito principalmente, educação para a razão: educar é formar seres humanos, e nós os seres humanos somos antes de mais seres racionais. A razão não é uma tendência puramente automática, mas um resultado social, possibilitado por umas capacidades naturais, evolutivas, etc. De modo que gostaria de começar por falar da importância de potenciar a razão por meio da educação, e depois finalmente dizer algumas palavras sobre a filosofia como uma disciplina racional que obviamente tem o seu lugar em qualquer plano de estudos, e não um lugar tão central ou único como às vezes, com um pouco de fantasia ou entusiasmo corporativista, nós os filósofos queremos. Mas creio que, em qualquer caso, tem um papel importante para dar uma certa unidade de sentido a muitas das coisas que constituem um curriculum, um plano de estudos.

(...)

II

Portanto, na educação, do que se pode tratar, do que se deve tratar, é de desenvolver o que é uma capacidade em princípio quase inevitável da vida em sociedade e da vida em comum; quer dizer, todos temos que raciocinar permanentemente para poder sobreviver. O elemento racional está em todos os nossos comportamentos, faz parte das nossas mais elementares funções mentais. Se alguém nos disser que ao meio-dia comeu uma feijoada(1) e que a paella estava muito boa, imediatamente dizemos: "não pode ser; ou feijoada ou paella". O próprio ato de nos darmos conta de que há coisas incompatíveis, de que as coisas não podem ser e não ser ao mesmo tempo, ou que as coisas contraditórias não podem afirmar-se simultaneamente, ou que tudo deve ter alguma causa, supõe exercícios de racionalidade. Esse tipo de mecanismos elementares estão em todos nós e não poderíamos sobreviver sem eles. Há em todos os lados, em todas as culturas e em todos os tempos algumas disposições naturais para o desenvolvimento de modelos racionais. Gombricht, num dos seus livros, diz que há povos que não conhecem a perspectiva pictórica, como os egípcios, por exemplo. Efetivamente há povos que não conhecem a perspectiva, mas não há nenhum povo em que qualquer dos seus membros, quando quer fugir ou esconder-se do seu inimigo, se ponha à frente da árvore e não atrás.

Portanto é evidente que a função racional está constantemente em nós. O que acontece é que o ser humano atual, o ser humano que queremos desenvolver, o ser humano civilizado que faz parte do final de um século e da passagem ao outro, que vai ter que se entender com máquinas muito complexas, que vai ter que usar registros muito diferentes, que talvez não vá gozar da mesma estabilidade no seu próprio desempenho laboral e corporativo mas vai ter que mudar de postos de trabalho, etc., tem que desenvolver uma capacidade racional que evidentemente não é algo puramente instintivo nem automático, e que também se não confunde com a mera informação.

III

O pressuposto de que ser racional é estar bem informado é um dos problemas da nossa época, em que se considera que ter acesso a muita informação desenvolverá a razão. A informação é útil precisamente para quem tem uma razão desenvolvida. Não é o mesmo, e Giovanni Sartori e outros doutores insistiram nisto, informação e conhecimento. Eu penso que há uma distinção importante entre ambos os conceitos. O conhecimento é reflexão sobre a informação, é capacidade de discernimento e de discriminação relativamente à informação que se possui, é capacidade de hierarquizar, de ordenar, de generalizar, etc., a informação que se recebe. E essa capacidade não se recebe como informação. Quer dizer, tudo é informação exceto o conhecimento que nos permite aproveitar a informação.

A educação não pode ser simplesmente transmissão de informação, entre outras razões porque a informação é tão ampla, muda tanto, existem tantas formas de aceder a ela, e cada vez mais, de uma maneira on-line, permanente, que seria absurdo que a função educativa consistisse simplesmente em transmitir conteúdos informativos. O que faz falta é transmitir modelos de comportamento que permitam utilizar e rentabilizar ao máximo a informação que se possui. Esse é um dos pontos fortes das finalidades da educação em geral e de qualquer disciplina em particular.

(...)

IV

Uma das características da razão é que serve para ser autônomo, quer dizer, os seres racionais são mais autônomos que as pessoas que não desenvolveram a sua capacidade racional. É evidente que autonomia não quer dizer isolamento, falta de solidariedade, solipsismo, mas serve pelo menos para cada qual se autocontrolar, se autodirigir, optar entre opções diferentes, proteger as coisas que se consideram importantes, empreender empreendimentos, etc. Creio que a autonomia é fundamental, e essa autonomia é exatamente o que a razão permite. O não desenvolvimento da razão faz-nos dependentes. De fato, as crianças muito pequenas e as pessoas que, por qualquer desgraça, perderam alguma das faculdades racionais a primeira coisa de que sofrem é uma dependência dos outros. De maneira que educar para a razão é educar para a autonomia, para a independência. E aqui há um ponto nuclear da verdadeira educação, e é que, nós os que nos dedicamos ao ensino, educamos para que as pessoas a quem educamos, os nossos alunos, possam prescindir de nós. Não há pior mestre do que aquele que se torna imprescindível toda a vida. O mestre que, de alguma forma, continua a ser sempre mestre, já não por uma veneração à sua pessoa, ao seu saber, mas porque se faz imprescindível, quer dizer, porque a matéria que explica ou a matéria que procurou oferecer aos outros está tão vinculada à sua pessoa que não se pode ele separar dela de nenhum modo nem os outros podem jamais aceder ao conhecimento sem ter essa pessoa para os guiar e iluminar, numa palavra, o gurú, é o contrário do mestre.

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V

Outra das obrigações no desenvolvimento da razão é o confronto com a ideia da opinião como última ratio de tudo o que há. Vivemos numa época em que se ouve a opinião, para mim disparatada, de que todas as opiniões são respeitáveis. Como é que podem ser respeitáveis todas as opiniões?! Se algo caracteriza as opiniões é o fato de não serem todas respeitáveis. Se todos tivéssemos acreditado que todas as opiniões são respeitáveis, ainda não teríamos descido da primeira árvore. Todas as pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objeto de nenhuma represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro. A mitificação da opinião própria conduz a considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados. Se não, não são opiniões, são dogmas. A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de aritmética, não é verdade. E a ideia de que é um sinal de democracia ou de liberdade que qualquer ideia valha tanto como qualquer outra e que é indiferente que quem a sustenta ignore os mecanismos do assunto, não possa aduzir nenhuma prova, não tenha dados, seja incapaz de raciocinar a sua postura, que essa vale tanto como a opinião de quem conhece o assunto, parece-me preocupante.

No entanto, há uma mitificação da opinião igual a essa espécie de encastelamento de quem se sente ofendido quando contrariado, como se as opiniões se pudessem ferir, e como se cada qual pudesse sentir feridas as suas opiniões. A ideia de que as opiniões formam um corpo conosco, e que o dizer "é a minha opinião" dá um grau de razão superior ao da opinião do vizinho, parece-me preocupante, sobretudo porque se considera um sinal de liberalidade intelectual reconhecer as opiniões de cada um, quando a única liberalidade que existe é reconhecer que as opiniões devem estar fundadas na razão e que ninguém tem direito a expor as suas opiniões se não tem razões para as justificar. A posição autenticamente livre, aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a pessoa o é.

 

VI

Ensinar estas coisas e ensinar a diferença que há entre o respeito pelas pessoas e os modelos de uma capacidade de escuta, a razão não se nota somente quando alguém argumenta como também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras, mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade fosse algo muito mau, quando o fato de alguém mudar de opinião demonstra que a razão lhe continua a funcionar. O mundo está cheio de pessoas que se orgulham de pensar o mesmo que pensavam aos 18 anos; provavelmente não pensavam nada, nem agora nem aos 18 anos, e graças a isso mantêm-se invulneráveis a todo o tipo de argumentação, razões, conhecimento do mundo, etc.

(...)

VII

A primeira coisa a ver é o que se vai a dar em filosofia, que papel pode ter a filosofia num mundo onde, quando queremos saber algo, acudimos à ciência. Uma vez respondida cientificamente uma pergunta, não temos que voltar a colocá-la, fica enjaulada nas soluções, mais completas ou mais incompletas, que a ciência dá. Mas há perguntas que não se podem cancelar, como o que é a liberdade, o que é a beleza ou a morte, ou a verdade. Não há uma resposta definitiva, mas respostas que nos permitem conviver com essas perguntas. São temas que têm tal quantidade de registos que tocam no fundo da nossa condição humana, que cancelá-las seria cancelar-nos, fechá-las seria fechar a nossa humanidade. A filosofia não fecha nenhuma pergunta, pelo contrário, a resposta filosófica acompanha a pergunta. A história da filosofia é a história das perguntas e das respostas que as acompanham e que podem continuar, (...) enquanto que a ciência pretende ir deixando para trás uma série de perguntas de modo que possamos avançar para outras.

(...)

A função da filosofia deve ser manter um dos pólos desta educação racional, quer dizer, o pólo mais aberto, o pólo também que marca os limites de qualquer razão humana, o pólo que trata do próprio mecanismo que nos leva a raciocinar, das formas do nosso raciocínio, de como a razão é algo que damos uns aos outros, que recebemos uns dos outros e não apenas algo que jorra de cada um. Esse papel da filosofia, essa espécie de teoria geral da razão, de último refúgio da razão enquanto relacionada com a vida, enquanto relacionada tanto com o racional como com o razoável, isso julgo eu que poderia ser a função da filosofia, mas naturalmente a educação racional não é somente filosofia, não se centra exclusivamente na filosofia mas em todos os campos educativos, desde os mais pequenos até aos mais altos, o processo de desenvolvimento da razão é a base. Não poderíamos encontrar outra base mais importante que essa transmissão de modelos racionais.

Isto é um pouco o que eu lhes queria expor, em parte para dizer que a educação deve potenciar a razão e portanto ensinar a rebelar-nos contra a sem-razão – porque naturalmente uma das dimensões da razão é a rebelião contra a sem-razão –, quer dizer, as pessoas racionais não o são só porque se comportam racionalmente, mas também porque lutam por viver numa sociedade racional e razoável, porque lutam por que não predominem os dogmas irracionais, as superstições, os fanatismos, aquilo que de alguma forma ira contra a razão. De modo que a razão é uma mostra de convivência, mas também uma fonte de dissidência e de rebelião. Potenciar isto é o caminho da educação e para isso deveria contribuir a própria disciplina de filosofia no Secundário(4) e inclusive como prática universitária.

 

Conferência pronunciada a 1 de Dezembro de 1998.

 

 
   

 

(Tradução de A.R.Gomes)

 

notas d'O Canto

(1) feijoada: no original, fabada (favada: prato de feijões com toucinho e morcela, típico das Astúrias, em "contraposição" à paella, típica de Valência).
 (2)Precaver-se contra explicações racionais, guardar chaves da capacidade racional: no original, Guardarse claves racionales, guardar claves de la capacidad racional.
 (3) no Secundário: no original, en el bachillerato (grau que obtém -- e os estudos para o obter -- quem terminou o ensino médio espanhol).
 (4) Ver nota anterior.

 Fonte: http://ocanto.webcindario.com/razaopor.htm